Desafios na vida e na montanha

contato • 22 de setembro de 2022

Procurando profissionais com determinado perfil, numa iniciativa de trabalho recente, tive uma conversa com uma mulher de sucesso na área de  consultoria, que validou o vínculo entre a montanha e a minha área de atuação profissional.


A consultora relatou a diferença em uma avaliação do seu trabalho, quando apresentou um projeto inovador e arriscado, sendo a mesma negativa. Porém, a seguinte avaliação, sem inovar e só mantendo o status quo, o mesmo avaliador, qualificou seu trabalho como altamente positivo.


Nossa conclusão foi a mesma. Como o novo, o diferente e o medo de arriscar, sem ter a certeza de qual será o resultado, gera rejeição inicialmente. Porém, depois de uma caminhada de esforço e resiliência, atingimos um resultado bem mais satisfatório. 


Risco, medo, incerteza, o novo (de verdade), planejamento, mérito, esforço, relações humanas, resiliência. Conceitos que lemos, estudamos, muitas vezes propagamos na nossa retórica profissional, certo?


Todos eles se aplicam numa expedição de alta montanha, e a seguir vou relatar a última expedição na qual participei e como nosso mindset (modo de pensar e agir) é fundamental para todas as áreas da vida.


Escolhi o destino e o projeto (montanhas) em fevereiro de 2022. A expedição aconteceria em julho, e teria em torno de 5 meses para me planejar. O planejamento inclui escolha do objetivo, logística, treinamento, equipamento e o time.


Tinha 5 meses para me dedicar ao condicionamento físico, a equipe foi se consolidando há 3 meses da viagem, e a logística foi se desenvolvendo também. Skills de team building são muito mais importantes do que se imagina: ter meta em comum, ter estado físico e conhecimento de montanha semelhante, colocar em prática suas habilidades e entender quais são as habilidades que os demais membros da equipe tem em destaque para contribuir.

Treino de escalada em rocha e pedal

Parte da equipe tinha realmente menor conhecimento e capacidade, porém mostrava-se muito disposta e motivada. A atitude foi o que priorizamos naquele momento!


A expedição para mim não tinha a ver só com a conquista de um cume, nem provar para alguém a minha capacidade como montanhista. Mas, como feito no passado, colocar conhecimento em prática, aprender novas competências, conhecer um novo local, nova cultura, e gerar consciência ambiental através dos fatos que observamos no nosso encontro cara a cara com o impacto do aquecimento global. Nenhum local melhor que a cordilheira Branca, nos Andes peruanos, conhecida pelos glaciares e neves que deixam suas fascinantes montanhas, justamente, brancas.

Glaciares e grietas das montanhas da cordilheira Branca.

No meio do planejamento resolvi arriscar na procura de patrocínio, e entrei em contato com as Empresas Processor, que entendo estar alinhada com todos estes valores de cultura, resiliência, esforço e impacto ambiental. Realmente nunca tinha procurado apoio neste sentido, e foi uma grande surpresa a resposta positiva.


Porém, a aventura nem tinha começado, quando os desafios começaram a aparecer.


Duas semanas antes da viagem, no treinamento, cai de mal jeito e machuquei o joelho, ficando 5 dias sem sequer poder apoiar o pé no chão. Logo depois, a equipe, que priorizava a atitude, se mostrou com valores diferentes, resultando em vários tipos de conflitos e desfechos do planejado.


5 meses planejando e poucos dias antes de subir no avião, tudo parecia se desmoronar na minha frente. De fato, desmorona, mesmo.


Você lembra daquela situação na sua vida que parecia sem saída? Aquele momento de desespero, seja no profissional ou no pessoal?


Aqui nossa velha e conhecida resiliência vem a ser protagonista. Mas não como parte de uma palestra motivacional, de algum curso de desenvolvimento ou do livro que ganhamos no Natal. Resiliência da vida real.


Olhar para as circunstâncias e a realidade com calma (em terceira pessoa, como gosto de chamá-la), e colocar tudo no papel, como se fosse uma “to-do list”, é o primeiro passo para entender a nova situação com uma perspectiva objetiva e racional. Esta é a nova situação, e são estas as alternativas para dar continuidade.


Me colocando em terceira pessoa do protagonismo da minha própria novela, consegui entender que teria que me ajustar. Voltei ao meu objetivo principal (como é fundamental ter metas e objetivos!!!!!) e coloquei em prática o jogo de cintura (ao que me refiro como Mindset Experimental) para adaptar na hora, com urgência, o processo até meu propósito.


Você está compreendendo o motivo pelo qual temos metas, destinos, finalidades? O desespero, a incerteza e o medo são parte do processo e da caminhada. Como resolver eles é o que interessa, não o cume. O cume é consequência. Assim como o cume é consequência da resiliência, o planejamento, o esforço, uma equipe (no caso a empresa que me patrocinou, e o pessoal que ficou como parte do time), alegria, motivação e crescimento. O cume, o novo emprego, sua própria casa, uma família, uma expedição, uma viagem, o que for, são resultado de tudo isso.


Arrisquei. Fui de joelho machucado para as montanhas no Peru. Arrisquei conhecendo pessoas diferentes (e maravilhosas), arrisquei fazendo acontecer, mesmo diferente do que tinha pensado e planejado. O medo sempre está presente, ele existe. A incerteza virou adrenalina motivadora e a experiência um sonho feito realidade.


Fiz cume de alta montanha Vallunaraju, conheci bem de perto a cultura quéchua, escalei rochas diferentes, identifiquei o impacto socioambiental na região e coloquei na prática, uma vez mais, a importância da motivação interna, o jogo de cintura e o foco no processo.


Se arrisque!

Cris Ljungmann é uma apaixonada pelo ser humano, com formação em Antropologia Social e uma forte ênfase nas áreas cultural e social. Incansável viajante pelo mundo, combina seus mais de 15 anos de experiência no ensino desenvolvimento humano, a uma fervente paixão pelo esporte aventura, meditação, arte e vida saudável. Curiosa, pesquisadora, coach, educadora, empreendedora e consultora.

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